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sábado, 16 de agosto de 2014

Cada verso que escrevo é sem razão



Se a esquiva é o desvão do fingimento, 
o silêncio sugere o sim e o não. 
Se a lembrança prepara o esquecimento, 
cada verso que escrevo é sem razão. 
Muito mal representa este momento; 
o passado e o futuro, pouco então. 
A distância do verbo ao pensamento 
é-me acima a do claro à escuridão. 
Já não sei o porquê do movimento 
que se dá entre a pauta e a minha mão. 
Se há gozo, confundo com o tormento 
—duas faces da mesma sensação—.
Um poema não diz meu sentimento, 
cada verso que escrevo é sem razão.


Antoniel Campos

 
Jose Royo


Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not the expression of personality, but an escape from personality. But, of course, only those who have personality and emotions know what it means to want to escape from these things.

T. S. Eliot

Madame butterfly, velha


Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.

Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.

E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.

  
Pedro Tamen 


Raciocínio


Uma das regras fundamentais do raciocínio é distinguir o fundamental e o acidental em determinada teoria, distinguir a teoria essencial e a aplicação particular que um ou outro lhe dê. Assim, se discutirmos o problema da existência de Deus, devemos começar por definir o que se entende por Deus nesse problema. Se se entende, como é de presumir, um ente espiritual supremo, criador do mundo, então, nesse sentido, examinaremos o problema, não o misturando com o problema acidental da existência ou não existência de um Deus omnipotente, ou bom, ou infinito. Este último é um conceito particular de Deus, não o conceito geral. É concebível um ente criador finito do mundo; é concebível um criador do mundo que não seja mau nem bom; é concebível um criador do mundo que não seja omnipotente. Cumpre, em suma, distinguir a ideia geral de Deus da ideia particular de Deus na Igreja Católica ou qualquer outra Igreja. Sem fazer esta distinção, não estaremos examinando o problema, mas outro problema.
Por isso o que há de fundamental em raciocínio é definir os termos que se vão empregar, ou os que se vão analisar. Muitas discussões resultam frustes e inúteis porque, girando em torno de certo termo, cada contendor dá a esse termo um sentido diferente; de modo que, julgando que estão discutindo a mesma coisa, estão, ao contrário, discutindo coisas diferentes. Já tem sucedido, por este erro, estarem discordando contendores que estão de acordo, e que o verificariam logo se começassem por definir, limitar, compreender o que é que, em suma, estão discutindo.

Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968.  - 140.

Pequena meditação

Juan Fortuny 


Chorai, negras águas,
À sombra das pontes,
Na raiz das árvores.

Tempo melancólico
Amarrando os braços
Dos altos relógios.

Cresceriam lágrimas,
Se não se abolissem
As lembranças cálidas.

Noites antiqüíssimas
Até nos esperam
Nomes de carícia.

Seremos idênticos
Ao passado enorme,
De amor e silêncio,

Ao jamais recíproco
Sonho que resvala
Para precipícios.

Só triste matéria
Lembrará mais tarde
Nossa descendência.

Em ruas contrárias,
Vereis negros tetos,
Como velhas máscaras.

Mas não esta fluida
Verdade da vida.
As mãos – sem a música.

Chorai, negras águas,
A dor, vagarosa,
E a memória, rápida.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

O sofrimento do hipócrita



Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjoo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.

Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"

Girassol



Em minha mão fechada cabe o dia,
o fogo aleatório dos instantes
e o silêncio que espalham os amantes
quando termina a festa e nada resta

da luz petrificada entre as montanhas.
Em minha mão aberta cabe a sombra
largada pela vida que me espera
além do inverno, quando a primavera

devolve ao caule a rosa fenecida
e o que foi volta a ser, e toda perda
retorna como um lucro imerecido.

A minha mão sustenta um girassol.
Sou sobra e o excesso, como o vento
ou como a luz incômoda do sol.


Lêdo Ivo, in "Curral de Peixe",

Geografia

Sergei Marshennikov

Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo
tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.


Roseana Murray
do livro No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse

Interior

Vasil Vasilev 


eu sou mais do chão ainda
mais da terra, mais do gado
cada vez mais me pareço
com esse mato todo errado

a cada dia mais perto
do que não foi retocado
cada vez mais distante
de ser homem letrado
a cada passo eu ando
mais sem trato,mais largado
descomposto e descuidado
com as coisas que tem maneira
to mais perto da besteira
que do que é estudado

cada vez mais me pareço
a essa terra e a esse gado

tô mais perto da quietura
que de tudo que é falado
e quanto mais vou aprendendo
mais vou ficando calado
é essa minha natureza
e vem dessa natureza
todo meu aprendizado

cada vez mais me assemelho
a esse mato sem cercado
sendo muito mais da terra
do aberto, do descampado
quanto mais vou parecendo
menos fico precisando

não careço o movimento
com solidão e silêncio
eu já sou acostumado
tenho sossego do céu
e sei viver do pensado

e pros lados da cidade
não sou de viver à vontade
fico esquisito, acuado

sou cada vez mais do chão
homem do meu pedaço
não precisa de lição
quem aprende a cada passo
sou homem que imita a terra
e é por isso que eu me basto

e sou cada vez mais isso
cada vez eu sou mais bicho.

Bruna Lombardi

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

emile vernon 


Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
Constrói o teu amor, vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
o que mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e
porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso.
Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.


Joaquim Pessoa

Diane Leonard 


Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.


João Cabral de Melo Neto, in: À Carlos Drummond de Andrade.
Poema publicado originalmente no livro "O Engenheiro", de 1945

Só é fútil quem não ama

Daniel F. Gerhartz 


No amor, eu quero ser útil.
Que você aceite o que tenho para dar, senão dói o excesso em mim.
O excesso que não é dado me machuca.
O excesso que não é dado acaba em egoísmo.
O abraço que fica comigo me emburrece. O beijo que fica comigo me angustia. A palavra que fica comigo me tranca. O sonho que fica comigo é solidão.
Aceitar o que ofereço já é me cuidar. Aceitar o que ofereço já é me amar.
Que você me deixe ser carinhoso, que me deixe ser romântico, que me deixe ser educado, que me deixe ser tarado, que me deixe ser preocupado, que me deixe falar bobagem para atrair sua infância.
Que me deixe comprar presente, oferecer carona, preparar café na cama, perguntar mil vezes se está tudo bem.
Que não diga que não precisa. Não precisar é negar, não precisar é não dar importância.
Quero que você queira estar comigo quando estiver enjoada, com febre, dor de cabeça, gripada, que eu seja sua emergência, sua urgência, seu colo e suspiro.
Quero que você queira conversar comigo porque sou seu melhor conselheiro, que seja seu contato mais usado no celular, a primeira pessoa a quem você deseja contar uma novidade.
Quero que você queira assistir filme comigo para segurar minhas mãos e pedir meu abraço, que eu seja seu casaquinho do cinema.
Quero que você queira beber comigo para brindar: vinho para segredos, cerveja para fofocas, uísque para assuntos sérios, tequila para loucura.
Quero que você queira transar comigo para que possa escrever meu suor em sua pele.
Quero que você queira minha barba, meu perfume, meu toque, minhas pernas, meu peso.
Quero que você queira passear comigo no fim de tarde, caminhar pela Encol tomando chimarrão enquanto o sol faz chapinha nas nuvens.
Quero que você queira ouvir meus textos, refletir comigo, contestar o que não acredita.
Quero que você queira que não viaje a trabalho, parando na frente da porta com suas chantagens eróticas.
Quero que você queira subir a serra de repente, para escolhermos as músicas de nossa preferência.
Quero que você queira voltar correndo para casa e grite meu nome como sua campainha.
Quero que você queira não largar a cama durante o frio para levantarmos um acampamento farroupilha no quarto.
Quero que você queira mostrar seus trabalhos, suas ideias, ouvir com atenção meus comentários, agradecer minha atenção.
Quero que você queira a cumplicidade como nunca houve na vida de nenhum dos dois, quero que você queira a exclusividade, que nos defenda para os amigos, que não nos fragilize perante os outros.
Quero que você me queira sempre, acima de tudo.
Porque só posso ser útil para quem me quer.

Fabrício Carpinejar
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 13/7/2014 Edição N° 17858

Dor elegante

by Fabian Perez


Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski