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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Uma Alma Amante e Terna


Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau caráter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena ação interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena ação externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu caráter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu caráter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.

Fernando Pessoa, in 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

O Livre Arbítrio


Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, exceto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo fato de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo fato de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Franz Kafka, in "Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdad"

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Desejo

rafal olbinski


A lua mingua com elegância,
olho o seu formato meia lua,
um queijo a cara dela suspensa no céu.
Eu nua, sem mentiras, sem véus
ouço a conversa das estrelas sobre as ruas,
e também ouso com elas as palavras
que Bilac me ensinou com as suas.
O que digo é que nunca estou só de todo
por causa da Via Láctea e outros acontecimentos celestes.
Quando lá não me detenho e por isso,
sem ver outros planetas, ignoro o que acontece,
o mar, revolto ou calmo,
seja lá como for, não me obedece.
Sou pequena,
o que não sei é o que o meu poema tece
para me ensinar a ser flor.

Ó luminoso beija flor
vagalume dos meus desmundos,
dos meus desterros nos caminhos escuros de nublada visão.
Ó verso antigo e novo
que desde de adolescência
vem me trazendo pela mão,
me dê sempre clareza onde antes era confusão.
Lampadinha iluminada,
remove a camada da ilusão
e deixe - me de frente pra vida,
ela mesma, a vida pura,
em sua versão milagre e espanto.
Só isso, não estou pedindo muito,
não estou pedindo tanto.
Só milagre e espanto.


Elisa Lucinda

Árvore no inverno



Abandono de aves e de folhas
Ninguém já descansa à tua sombra.
só te resta a nua arquitetura
de ramos como braços de náufragos

Assim me enternecem
o teu frio, ausência de cor,
a tua penosa hibernação

Resignados, mas confiantes,
ambos aguardamos
a ressurreição na primavera."


Fernando Couto


A neblina pisa leve e macia,
rendilhada e feminina.
Mantilha, silêncio, sapatilha.
Desce na sombra,
volita, dança e vai embora.
Névoa, bruma, fumaça, mulher.
Insinua, sugere e depois passa.
Vaga esperança em coração de malmequer


Flora Figueiredo 

Fogo e água

Anna Razumovskaya

Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.

Abraça-me.
Abrasa-me.


Mia Couto


Querida Marina...
Os olhos, retirados do rosto, são peças anatômicas sinistras. O segredo do seu olhar mora no rosto com que miro você


O VINICIUS ESCREVEU um poema intitulado "O Haver". O "Haver" era o nome de uma página dos antigos livros de contabilidade onde se registrava o que havia sobrado, o ganho, o "a receber", por oposição ao "Deve", onde se registravam as dívidas, o que deveria ser pago. É um poema de velhice, balanço do que sobrou na vida.
Eu também já estou no tempo de fazer o balanço entre as dívidas e os haveres. Minha vida se divide em três fases. Na primeira fase, o meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses, verdades e absolutos. A esperança que eu escrevia na página do "Haver" era do tamanho da luz do sol ao meio-dia.
Na segunda fase, meus haveres encolheram. Meu mundo passou a ser habitado por heróis revolucionários que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo. A esperança que iluminava o universo passou a iluminar apenas os horizontes da história.
Na terceira fase, mortos os deuses, mortos os heróis, mortas as esperanças teológicas e políticas, fiquei pobre de verdade e o meu mundo se encolheu mais ainda -e chegou não à sua verdade final, mas à sua esperança final, que teima em se alegrar com coisas pequenas.
A esperança é a última que morre. O Vinicius reconheceu essa chama entre os seus haveres e a chamou de "pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança".
Diferente do otimismo. O otimismo é "sorriso por causa de", quando há razões para sorrir. A esperança é "sorriso a despeito de", quando não há mais razões para sorrir.
A imagem que o Vinicius escolheu para descrever sua pequena esperança é comovente: "Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa tristeza diante do cotidiano; ou essa súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perdem sem história".
Álvaro de Campos escreveu um verso bruto: "E a luxúria única de já não ter esperanças?" Não ter esperança é estar em paz, não ter causas por que lutar, o fim do esforço... Viver o presente, o presente apenas, como se o futuro já não se anunciasse, como se fosse inútil saber o que ele anuncia.
A luz do círio aceso se transforma em sombras fantasmagóricas nas paredes arruinadas daquilo que, no passado, foi uma catedral onde moravam os deuses. Muitos deuses e muitos heróis moraram dentro de mim. Hoje, não sei onde se meteram... Sou uma catedral em ruínas... Mas aí eu ouço passos na noite...
Olho e vejo que alguém, no escuro, carrega uma chama. Me animo. Escrevo: é o meu jeito de soprar cinzas. Meu círio se acende. Fico alegre. A luz põe alegria no olhar.
O que é um olhar? O olhar não se encontra nos olhos. Não adianta olhar fundo nos olhos. O olhar não está lá. Foi Sartre que disse que "o olhar do outro esconde os seus olhos." Cecília Meireles confirma: "O sentido está guardado no rosto com que te miro". Não os olhos; o rosto... Os olhos, retirados do rosto, são peças anatômicas sinistras. O segredo do seu olhar mora no rosto com que miro você.
Quero ver o seu olhar, Marina. Quero ver o seu rosto, onde mora o sentido, e não dois olhos retirados do seu rosto. O seu rosto, moldura dos seus olhos, fala mais e diferente que os seus olhos. Não quero ver os seus olhos na televisão. Quero ver o seu rosto, onde mora o seu olhar...


Rubem Alves
fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1310200904.htm

terça-feira, 1 de abril de 2014

Fui

Sergio Martinez 


Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.

E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.


Konstandinos Kavafis


Rukiye Garip


The little river twittering in the twilight, 
The wan, wondering look of the pale sky, 
This is almost bliss.

And everything shut up and gone to sleep, 
All the troubles and anxieties and pain 
Gone under the twilight.

Only the twilight now, and the soft "Sh!" of the river 
That will last for ever.

And at last I know my love for you is here; 
I can see it all, it is whole like the twilight, 
It is large, so large, I could not see it before, 
Because of the little lights and flickers and interruptions, 
Troubles, anxieties and pains.

You are the call and I am the answer, 
You are the wish, and I the fulfilment, 
You are the night, and I the day. 
What else - it is perfect enough. 
It is perfectly complete, 
You and I, 
What more--?

Strange, how we suffer in spite of this.


 David Herbert Lawrence

Canção azul

 George Tsui

O tempo chegará
da palavra invisível
transformada em pássaro
e que acorde lembranças
há muito esquecidas
no coração sepulto.
O tempo afinal virá
o tempo sem limites
em que os enforcados
mortos e vivos
e uma lua romântica
das noites da infância
voltem a dançar
no ar da manhã.

Paulo Plínio Abreu, em "Poesia"

Definição

OLGA VERCHOLAMOSA


poeta é onda
onda é canto
canto é espera
espera é adeus
adeus é morte
morte é nódoa
nódoa é ostra
ostra é ensaio
ensaio é busca
busca é poeira
poeira é poeta


Ana Cristina Cesar, "Poética" 

Vastos Campos

Olga Gouskova 


Vou fazer-te uma confidência, talvez tenha já começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delírio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para minha alegria, a terra vai arder comigo. Até ao fim.

Eugénio de Andrade, in 'Poesia e Prosa

Futuro

Nicolas Senegas

Con un cauce más bien desconocido
el futuro es un río de futuros
cada día que pasa es un quién sabe
donde lo venidero sigue oculto

en el futuro hay una pregunta
pendiente de recónditos ayeres
donde el filtro cabal de la consciencia
espera las respuestas de la gente

hay que hacer lo posible y lo imposible
para que la esperanza no se extinga
ella es la clave de cualquier mañana
y hay que cuidarla como un salvavidas

el futuro hace sombra en el aire
y tanbién hace luces en la tierra
lo esperamos fervientes y descalzos
con una expectativa sin cadenas

el futuro / suelto y deseoso
de que lo introduzcamos en un libro
y desde allí enseñarnos los secretos
para querer y para ser querido


Mario Benedetti