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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Devoto

Desenho a carvão Lovers Kiss, de Carla Carson

  O que faz a diferença no sexo é a devoção. É uma palavra religiosa, mas que combina perfeitamente com a cama. Estar inteiro. Interessado em dar prazer mais do que ter prazer. Voltado unicamente para aquela nudez.

A devoção excita. Devoto dos seios. Devoto das coxas. Devoto da cintura. Amar o corpo dela com toda avidez. Com os dentes mais do que a língua, com a barba mais do que a boca.

Pois só nos entregamos quando nos sentimos únicos. O devoto tem determinação, o que não pode ser confundido com pressa. Nada pode distraí-lo. Está disposto a tudo. Alheio ao que será dito a seu respeito, desinteressado da fama, disposto a nunca mais sair daquela fantasia.

A obscenidade é fome de amor.

Fabrício Carpinejar
 Emerico Toth

 Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração. 

Fernando Pessoa, 15-11-1930

Momento de felicidade

alex alemany


Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.

Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)

 
São os dedos que tocam as flores
São os dedos
que tocam
as flores, ou são estas
que delicadamente pedem
às mãos
um gesto
de caricia

Albano Martins


Ceifaram-me as asas
antes de as sentir

como
abri-las
senão imaginando?

Casimiro de Brito


Morreu de quê?
- Sufocou com as palavras que nunca disse.

Guilherme Figueiredo, in: Despropósitos

O médico e o monstro (trecho)


"A sala de dissecação ocupava a maior parte daquele edifício e quase todo o piso térreo; a luz entrava por cima e pelo gabinete, que formava na outra extremidade da sala um segundo piso. Um corredor unia a sala à porta que dava para a viela e, por sua vez, comunicava separadamente com o gabinete por um segundo lanço de escadas. De resto, havia alguns pequenos quartos, muito escuros e um amplo sótão. Tudo isso foi examinado minuciosamente. Os cubículos só precisaram de uma vista de olhos.porque estavam vazios e, a julgar pelo pó que caía das suas portas a um simples movimento, havia muito tempo que não eram abertas. O sótão estava abarrotado de trastes velhos, na sua maioria pertencentes ao cirurgião que antecedera o Dr. Jekyll; no preciso instante em que abriram a porta, soltou-se dela uma teia de aranha enorme e emaranhada que durante muitos anos havia sido tecida à entrada e que os alertou para a inutilidade de procurarem mais. Em nenhum lado se via rasto de Henry Jekyll, vivo ou morto."

Robert Louis Stevenson, O médico e o monstro

Retrato do Artista Quando Jovem (trecho)


 
Aristóteles não definiu a piedade e o terror. Eu defini. Escuta…
A PIEDADE é o sentimento que faz parar o espírito na presença de algo que seja grave e constante no sofrimento humano e o une com o sofredor humano. O TERROR é o sentimento que detém o espírito na presença de seja lá o que for que seja grave e constante no sofrimento humano e o liga à sua causa secreta.
De fato, a emoção trágica é uma face olhando para dois lados, para o terror e para a piedade, pois que ambos são faces dela.
Repara bem que emprego o termo deter, ficar parado. Quero com isso significar que a emoção trágica é estática. Ou, antes, a emoção dramática é que o é. Os sentimentos excitados pela arte imprópria são cinéticos, desejo, ou repulsa. O desejo nos compele a possuir, a ir para alguma coisa; a repulsa nos compele a abandonar, a partir duma dada coisa. As artes que o excitam, pornográficas ou didáticas, são, por conseguinte, artes impróprias. A emoção estética (sempre emprego o termo geral) é, por conseguinte, estática. O espírito fica detido e suspenso acima do desejo e da repulsa.
O desejo e a repulsa excitados por meios estéticos impudicos não são realmente emoções estéticas, não só porque são cinéticas em caráter como também porque não são senão físicas. A nossa alma contrai-se ante aquilo que teme e responde ao estímulo daquilo que deseja por uma ação puramente reflexa do sistema nervoso. Nossas pálpebras fecham-se antes que estejamos cônscios de que a mosca está a ponto de entrar no nosso olho.
A beleza expressa pelo artista não pode despertar em nós uma emoção que é cinética, ou uma sensação que é puramente física. Ela desperta ou deve despertar, ou induz, ou deve induzir, um êxtase estético, uma piedade ideal ou um terror ideal, um êxtase que perdura, que se prolonga e que acaba, por fim, dissolvido pelo que chamo de ritmo de beleza.
O ritmo é a primeira relação formal estética duma parte com outra parte, em qualquer conjunto ou todo estético, ou dum todo estético para a sua parte ou para as suas partes ou duma parte para o todo estético do qual é parte.
Falar destas coisas, tentar compreender-lhes a natureza, e, tendo-a compreendido, procurar lenta, humilde e constantemente expressar (tornar a extrair da terra bruta ou do que dela procede, do som, da forma e da cor, que são as portas da prisão de nossa alma) uma imagem da beleza que chegamos a aprender — isto é arte.
Que é a arte? Que é que a beleza exprime? A arte é a disposição humana de matéria sensível ou inteligível para um fim estético.
Santo Tomás de Aquino diz que o belo é a apreensão do que agrada. Pulcra sunt quae visa placent.
Ele emprega a palavra visa para revestir as apreensões estéticas de todas as maneiras, seja através da vista ou do ouvido, seja através de qualquer outra perspectiva de apreensão. Esta palavra, conquanto seja vaga, é clara o suficiente para discernir o que haja de bom e de mau que excite o desejo e a repulsa. Significa certamente uma estase e não uma cinese. E relativamente ao real? Também produz uma estase do espírito.
Por conseguinte, estático, Platão, creio eu, disse que a beleza é o esplendor da verdade. Não acho que isso tenha um sentido, mas a verdade e a beleza são aparentadas. A verdade é contemplada pelo intelecto que é acalmado pelas mais satisfatórias relações do inteligível; a beleza é contemplada pela imaginação que é acalmada pelas mais satisfatórias relações do sensível. O primeiro passo na direção da verdade é compreender o escopo e o encaixe do intelecto mesmo, compreender o ato mesmo de intelecção. Todo o sistema de filosofia de Aristóteles repousa no seu livro de psicologia e esta, penso eu, no seu princípio de que o mesmo atributo não pode ao mesmo tempo e com a mesma conexão pertencer e não pertencer ao mesmo objeto. O primeiro passo na direção da beleza é compreender o limite e o escopo da imaginação, compreender o ato mesmo da apreensão estética.
Embora o mesmo objeto possa não ser bonito para toda a gente, toda gente pode admirar um objeto bonito, encontrar nele certas relações que satisfaçam e coincidam com os estágios próprios mesmos de toda apreensão estética. Tais relações do sensível, visíveis para mim através duma forma e para ti através doutras, devem ser, por conseguinte, as necessárias qualidades da beleza. Já agora podemos voltar ao nosso velho amigo Santo Tomás para outros dez vinténs de sabedoria.



James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem

O amor é a arte de se agarrar na vida

 Catrin Welz-Stein.


Você pode fazer o que quiser com isso. Guarde, jogue, passe adiante, sorria, chore, avise a polícia, reflita, esqueça. Não importa. É urgente dizer que eu tenho amor por você. Tenho, sim.

Não vai aqui nenhum pedido de reciprocidade, namoro, casamento. Nada disso. É só a minha necessidade teimosa de dividir o que eu sinto. Confesso. Eu até ensaiei no espelho para lhe fazer essa declaração com um certo jeito, mas resolvi ir direto. Sem rodeios e astúcias. Quem tem amor não perde tempo com bobagem. Eu amo e pronto. Amo! Tenho uma vontade grandiosa de trabalhar e construir e ter uma vida boa nesse mundo por onde você anda. É, dá em mim uma alegria tão grande, um sentimento tão cheio de dignidade que cada pedacinho meu se toma de uma pergunta simples, pegando fogo aqui dentro como mato seco no calor: se não for pra ser feliz, qual é o sentido disso tudo?

A vida é boa mas vez ou outra é tão difícil, né? Fazer o quê senão viver, então? O mundo é enorme mas é tão pequeno, os anos são longos mas o tempo é tão breve. Então vamos logo ao que interessa! Tome aqui o meu amor. Pode pegar. Ele não avança. É só amor.

Ódio, todo mundo tem de sobra. Deixemos de mentir a nós mesmos: todos já odiamos alguém ou alguma coisa. É do ofício de viver. Agora, passar por cima disso e seguir adiante é a escolha de se agarrar na vida, deixar o veneno escorrer pelo ralo, sair na urina. Eu aceito a troca. Pode demorar, mas devagar a raiva dá lugar à calma, esse recanto manso e agradecido dos amores. Entrego meu amor tanto quanto me recuso a confiar nesse negócio de que está tudo perdido e sem solução.

Está faltando é amor e eu tenho um tanto aqui a dar de graça. Fui juntando, sabe? Guardei amor com os anos e isso rendeu em algum fundo extraordinário de investimentos com juros e correções astronômicas. Fiquei rico. Agora quero dividir com o mundo porque o mundo tem jeito, sim. Mas dá trabalho, dá uma trabalheira danada e onde falta intenção amorosa também é fraca a disposição para a labuta. Você sabe, o amor é uma construção de vida inteira. E nós estamos sempre em obras.

Tome! Pegue aqui um bocado disso que me sobra e leve adiante. É só fazer o que eu fiz agorinha com você. Escolha alguém e diga a ele que anda rindo sem motivo, chorando sem razão. Diga a alguém que o quer bem. Pronto. Depois faça isso de novo. Com outro que também há de fazer bem a outra pessoa, e outra, e depois outra.

Você sabe, eu não sou dessa gente que se apega a tudo e a todos, não. Mas na vida, ah, na vida eu me agarro, me seguro, corro junto. Eu amo esse negócio de estarmos aqui em nossa companhia! E viver e amar são trabalhos coletivos. Nós precisamos uns dos outros.

Quando na vida falta amor, aí o nosso ódio desanda tudo. Repare. Repare no trânsito o sujeito que joga o carro em cima do outro, buzina raivoso, briga, xinga, parte pra cima de alguém com as mãos fechadas e uma bruta sede de ver o sangue alheio. Tivesse ele amor, não perderia tempo com essa bobagem toda. Aquele a quem o amor não falta nem liga quando toma uma fechada ou um buzinão. Deixa pra lá, respira, dá e pede desculpas, sorri, aumenta a música no rádio e segue seu destino sem ver a hora de estar de novo em casa, no seio de sua família, ao lado de seus amigos, na bem querença divina de suas coisas.

Vê quantas medidas paliativas e ridículas por aí, tentando inúteis substituir a necessidade de jogar em nossa cara que nós precisamos nos amar mais? Esperando diminuir o número de vítimas nas estradas, o governo obriga as fábricas automotivas a instalar freios infalíveis e airbags nos veículos. Quem sabe assim menos pessoas morram de desastre, né? Muito bem. Mas isso vai resolver é nada sem um pouquinho de amor entre nós.

Os carros deviam sair de fábrica com eletrodos nos bancos que disparem cargas fortíssimas de amor em seus motoristas e passageiros. O sujeito que tem amor ao outro tanto quanto a si mesmo não faz ultrapassagens proibidas e arriscadas a ponto de atentar contra a própria vida e a dos outros, não excede criminosamente os limites de velocidade, não avança no sinal vermelho contra pessoas na faixa de pedestres.

E para diminuir os homicídios? O governo aumenta as frotas policiais, reforça a vigilância, constrói cadeias, fecha o cerco. Está correto. Mas é pouco. Falta ensinar e praticar amor nas escolas. Amor que é educação e é empenho, trabalho, construção, respeito e tolerância.

Olha, a gente sempre pode se enganar, mas eu tenho a impressão de que um sujeito com o coração repleto de bons sentimentos não vai matar ninguém  nem vai roubar, agredir, violentar e praticar o mal para que outra criatura também decida lhe tirar a vida.

Está faltando amor por aí. Mas amor não é que nem água, que a gente raciona. Amor a gente divide sem desperdiçar. Amor a gente entrega de casa a casa em caminhões-pipa. Borrifa lá do alto em aviões-tanque para apagar o incêndio raivoso e desesperado do cada um por si. Entrega em envelopinhos perfumados de sorrisos e palavras gentis.

A gente devia aprender que a vida é alguma coisa por aí mesmo, um exercício poderoso de amar. E que o ódio só se espalha por onde falta amor. Na horta de quem não tem amor o mato cresce em largo desmazelo, entre famílias de carrapichos, ervas daninhas, plantas carnívoras, aranhas peçonhentas e tantas abobrinhas indigestas, sem futuro. Eu tenho amor aqui. Pode pegar. É nosso. Nós precisamos uns dos outros. Aliás, até para ser sozinha uma pessoa precisa das outras, para delas se afastar ou, como em muitos casos, por elas ser deixada.

Acontece que eu ando de amores por você que eu nem sei quem é. Porque eu sei que você é todo mundo que caminha por aí. Não importa. Eu tenho amor aqui e você também. Juntando o meu, o seu e o de todo mundo, deve dar em alguma coisa boa na vida.

ANDRÉ J. GOMES (Revista Bula)

Arremesso

Bellarmine Miranda

Por que despertar em mim esse animal
alucinado. Animal de olhos de fogo.
Selvagem e louco. Esse animal acuado
que perde sangue no jogo.
Essa fera que te ataca e te resiste.
Que por pouco não te mata.
Ah, essa desenfreada que me existe
e me devora. Por que despertá-la agora
já que há tanto vinha adormecida.

Por que assustá-la assim em meio ao sono.
Por que arrancá-la bruscamente de seu sonho
e transportá-la de repente para a vida.
Por que despertar em mim essa cavala doida
que vai te galopar de corpo inteiro.

Enlouquecida que vai se ferir em meio ao trote.
Porque atiçar esse bicho
que nessa luta vai morrer primeiro.
Que vai morrer de fome, de grito, de garganta enxuta,
de tanta entrega. Dilacerado de tanta força bruta.

Por que despertar essa besta que me habita
que se torna cruel e desumana quando aflita.
Por que gritar com ela no silêncio de um sono branco
em que já vinha há tanto.
Por que provocá-la em meio ao espanto
quando ainda não era o seu tempo.

Bruna Lombardi


“Em todos há uns ares de pequenos disfarces, alisam simultâneos o dorso do cão, será porque a pergunta traz no corpo mergulhadas as palavras Tempo e Duração? Eternidade e seu corpo de pedra e dentro desse corpo o tempo procraz insolência soterrado na carne, ai Rute se o tempo no teu rosto te cobrisse de rugas, se tivesse a dura e adocicada comunhão com as coisas, talvez sim tu serias mais bela porque o rosto adquire a refulgência e dor e maravilha e matéria de tudo o que te rodeia te penetra, e ao invés de gastares teu ouro no apagar das linhas finas e dos sulcos, tu te tocarias amante, mansa, sabendo que o vestígio de todas as solidões se fez presença no teu rosto, que o sofrido da água é cicatriz agora ao redor da tua boca, que tomaste para tua fronte a linha funda da pedra. Ruteidade de Rute se te conhecesses como Tadeu desejaria, se deixasses que o Tempo fizesse a sua casa no teu centro, se a nossa casa tivesse sido a vida de nossas próprias casas, Se Tadeu tivesse ouvido aquele murmúrio ecoante adolescente que se fez inesperado em verso: cria a tua larva em silêncio,também estou mudo e aguardo. e ao contrário, me fiz num caminhar insano e fui atrás dos teus murmúrios ocos e a vaidade tomou posse do meu corpo quem sabe se porque te via, Rute, dourada, os crepes da cor de um tabaco escolhido esvoaçavas sobre os tapetes cor de sangue, mas na verdade teus sapatos mínimos mergulhavam no sangue de Tadeu, eu não sabia, eras adequada ao cenário da sala, como se um traço fosse pensado apenas para te colocar num pergaminho-marfim mais precioso, e depois te sentavas nos tecidos listados, ostro do respaldar te refletindo a cara, Rute cravada no palco, e eu procurava um texto sábio para contraponto e me via repetindo os versos de um homem que conheci lúcido-louco: ames ou não ó minha amada / quero-te sempre boa atriz / mentir amor não custa nada / e custa tanto ser feliz."

Hilda Hilst - TADEU (da razão), do livro "Tu não te moves de ti"

Por que o socialismo?


O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas privados controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.

Por que socialismo? – Albert Einstein

fonte

Poema


De repente volta
o que nem sei se foi
sonhado ou vivido.
Que apelo me chega
desta voz que emerge
de tão fundas águas?
Alguém esquecido
no fundo dos tempos?
Meu anjo vencido?
Meu duplo secreto?
Que apelo indizível
me chama, me grita
que esqueça, que durma,
ou me divida em tantos
que nenhum seja eu?

Nem eu, nem ninguém. 

Emílio Moura