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domingo, 14 de setembro de 2014

Amo-te

Antonio Sgarbossa.

Talvez não seja próprio vir aqui, para as páginas deste livro, dizer que te amo. Não creio que os leitores deste livro procurem informações como esta. No mundo, há mais uma pessoa que ama. Qual a relevância dessa notícia? À sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores não deverão impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instantâneos poderão diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto será como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apagá-las. E possível que, perante esta longa afirmação, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde já, toda a razão.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido. Eu próprio procuro ainda essa compreensão. Estou aqui apenas com o meu rosto, o meu olhar parado, a minha figura. Tudo aquilo que tenho para dizer está por detrás dessa imagem. Hoje, esse é o alfabeto com que realmente escrevo, o significado. Escrevo também com uma grande quantidade de elementos invisíveis, que chegam à pele e a atravessam. É dessa forma que sinto aquilo que tenho para dizer, pele e para lá da pele.

Os teus pais vão ler estas palavras, que embaraçoso. A minha mãe, as minhas irmãs e as minhas sobrinhas vão ler estas palavras e vão pensar: passou-se. Consigo imaginar todas essas reacções, mas não consigo evitar que este texto continue a dizer que te amo. Sei que os outros apenas nos poderão ver com os seus próprios olhos. Para eles, seremos qualquer memória, qualquer impressão, um reflexo daquilo que eles próprios sabem, personagens de uma espécie de telenovela. A grande diferença é que nós somos nós e temos este agora imenso, este verbo no presente. Talvez fosse mais confortável, se dispusesse de um verbo mais sofisticado, menos gasto: liquefazer, maturar, discernir. Um tempo verbal mais complexo: se eu te tivesse liquefeito, se eu te tivesse maturado, se eu te tivesse discernido. Talvez. Nunca saberei porque aquilo que tenho para dizer é este verbo, este presente do indicativo de escola primária.
Na sua simplicidade, encandeia e, no entanto, diz tão pouco. Mesmo tentando, transmito-lhes pouco ao informá-los que te amo. Não ficam a saber mais do que se lhes dissesse que me alimento, respiro, existo. E não podem sequer ter a certeza de que eu dependa dessas necessidades vitais. Talvez seja melhor assim, continuem debaixo do guarda-sol, do pinheiro de piqueniques, olhem em volta, virem a página. Talvez seja preferível que a imensidão deste momento não os perturbe, que se mantenha onde está, invisível e tão concreta nas cores da paisagem, nomeada por estas palavras que não a dizem e que, no entanto, existem, impressas, pouco ecológicas e, ainda assim, feitas de uma natureza única, a natureza, que nasce da terra, que se estende no céu, sol, lua, oceano, montanhas, que determina o dia e a noite, a passagem das estações, a idade, e que está contida numa só palavra, num só verbo, que abrigo no meu rosto, que é transparente no meu olhar e que agora, aqui, nas páginas deste livro, preciso de dizer. Talvez não seja próprio dizê-lo aqui, mas talvez seja ainda menos próprio escrevê-lo em todas as paredes da cidade, esculpir precipícios com essa verdade ou rasgar o peito com uma faca e, com a ponta dessa mesma faca, gravá-lo dentro de mim, em sulcos profundos, com o tamanho deste agora.

José Luís Peixoto
In 'Abraço'

Pessoa



Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. Que não dura, que se extingue. Míngua. Negócio finito, que finda. Festa que termina. Coisa que passa, se apaga, fina. Pessoa. Troço que definha. Que será cinzas. Que o chão devora. Fogo que o vento assopra. Bolha que estoura. Sujeito. Líquido que evapora. Lixo que se joga fora. Coisa que não sobra, soçobra, vai embora. Que nada fixa. A foto amarela o filme queima embolora a memória falha o papel se rasga se perde não se repete. Pessoa. Pedaço de perda. Coisa que cessa, fenece, apodrece. Fome que se sacia. Negócio que some, que se consome. Sujeito. Água que o sol seca, que a terra bebe. Algo que morre, falece, desaparece. Cara, bicho, objeto. Nome que se esquece.

Arnaldo Antunes

Palavras



ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

sandy lynam clough

Bom é o esquecimento. 
Senão como é que 
O filho deixaria a mãe que o amamentou? 
Que lhe deu a força dos membros e 
O retém para os experimentar. 

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre 
Que lhe deu o saber? 
Quando o saber está dado 
O discípulo tem de se pôr a caminho. 

Na velha casa 
Entram os novos moradores. 
Se os que a construíram ainda lá estivessem 
A casa seria pequena de mais. 

O fogão aquece. 
O oleiro que o fez 
Já ninguém o conhece. 
O lavrador 
Não reconhece a broa de pão. 

Como se levantaria, sem o esquecimento 
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã? 
Como é que o que foi espancado seis vezes 
Se ergueria do chão à sétima 
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso? 

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.


Bertolt Brecht, Louvor do esquecimento

278 – O pensamento da morte

Pat BBrennan


Uma alegria melancólica origina-se em mim pelo fato de viver neste emaranhado de ruelas, de necessidades, de vozes: quantos prazeres, impaciências, desejos, quanta sede de vida e de embriaguez de vida surgem aqui a cada nascimento! Todavia, que silêncio depressa terá coberto todos estes barulhentos, todos estes vivos, todos estes ávidos! Como se vê bem atrás de cada um desenhar-se a sua sombra, o seu obscuro companheiro de caminho! Acontece constantemente como no último momento antes da partida de um navio de emigrantes: há muito a dizer-se, a hora aperta, o oceano e o seu vazio silêncio esperam impacientemente atrás de todo este barulho... tão ávidos, tão seguros de sua pressa! E todos, todos imaginam que o passado não é nada, que o futuro próximo é tudo: de onde esta pressa, estes gritos, esta necessidade de se endurecer, o atordoar-se a avantajar-se! Cada um deles quer ser o primeiro neste futuro e, no entanto, a morte, o silêncio do túmulo, é a única certeza que ele oferece, e comum a todos nesse futuro. Como é estranho que esta única certeza e esta única comunhão não possam quase nada sobre os homens, e que não haja aí nada mais distante do seu espírito que a ideia de sentir esta fraternidade da morte? Sinto-me feliz ao perceber que os homens se recusam absolutamente a querer pensar na morte. Eu gostaria muito de poder contribuir para lhes tornar o pensamento da vida ainda mil vezes mais digno de ser pensado.


Friedrich Nietzsche in  A Gaia ciência

Indícios

Alex Alemany 


Tenho medo que eles entrem e descubram 
quem era esse que eu chamava antônio 
me preocupei com todos os vestígios, os detalhes 
mas há coisas que a gente esquece pela casa 
embora a alma pareça indevassável 

tenho medo que eles me leiam o pesamento 
sei que uma mulher sem querer se denuncia, se trai 
é coisa de um momento, uma fração 
a emoção foge a qualquer controle mesmo que contida
mesmo com o meu aprendizado 
e mesmo com todo esse cuidado 
que eu teimo e cismo e me obstino e me proponho 
confesso que a cada manhã tenho medo 
que eles entrem e descubram 
a quieta, a secreta subversão do sonho 


Bruna Lombardi
In O Perigo do Dragão, 1984 

Noite

arkady ostritsky paintings


A noite, com sua 
partitura de mistérios
faz música.

Fecho os olhos
e ouço o som
do universo
como se fosse
um zumbido
de anseios e luz.

Caminho sobre 
a linha invisível
dos desejos.


Roseana Murray
do livro No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse



A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.


Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Insensatez



Você me permite ir, você me permite escolher, você é democrática, sensata, elegante, madura, equilibrada, não procura forçar sua opinião, impor sua vontade, você oferece espaço, aguarda, pede que eu reconheça seu valor, sai de perto para não pressionar, chora e sofre distante, recrimina o ciúme e me exclui.

Desculpa. Mas amor não é justiça, amor não é julgamento, amor não é consciência, amor não é controle.

Amor é um filho da p. da insistência, é manter-se perto, próximo, junto, grudado, até que o entendimento da vida estale.

Não é se afastar, não é facilitar o trabalho dos outros se afastando. Não é exigir que venha agora ou nada, que venha inteiro ou nada. Diante do extremismo, sempre ficaremos com nada.

Partilho da crença de que o provisório é tudo.

Pode vir pela metade, fragmentada, dividida, um terço de si, uma parcela, que eu aceito e completo. Eu lhe quero do jeito que der, do jeito que for.

Pode vir confusa, em crise, indecisa, ambígua, que logo unifico seus receios.

Não confio na saudade, confio na presença. A saudade só adoça o arrependimento.

Eu não saúdo a saudade. Eu dou a porta de saída para a saudade.

É com a convivência que vou mostrar que sou o melhor para seu temperamento, que sou também o pior, que sou o que espera, e sou também o que não espera, que sou sua alegria e também sua desordenada raiva, que sou seu encantamento e também sua decepção, que sou o centro de seus dias e também as margens de suas noites.

Não serei educado para deixá-la em paz. Nunca. Amor quando dói é mal-educado. Falarei excessivamente, farei sinais e gestos passionais, tremerei mais do que copo de morto - terá o que se lembrar de mim.

Não finja que deseja meu bem. Não há bem com a distância. Deseje meu mal, mas deseje que eu seja seu.

Aquele que é o nosso maior erro costuma ser o grande amor de nossa vida.


Fabrício Carpinejar
Da série "Ficções do Amor"

Sintonia para pressa e presságio




Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Paulo Leminski

A Esfinge




Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me

No fundo não me importa
O enigma que proponho.

Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
Minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.


Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.


E por saber que a morte
É a última chave,
Adivinho-me nas vítimas
Que estraçalho.


Myriam Fraga

O existencialismo é um humanismo


O existencialista declara frequentemente que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade  inteira, não consegue escapar ao sentimento  de sua total e profunda responsabilidade. É fato que muitas pessoas não sentem ansiedade, porém nós estamos convictos de que essas pessoas mascaram a ansiedade  perante  si mesmas, evitam encará-las; certamente muitos pensam que, ao agir, estão apenas engajando a si próprios e, quando lhes pergunta: mas se todos fizerem o mesmo? Eles encolhem os ombros e respondem: nem todos fazem o mesmo. Porém, na verdade, devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós? E não podemos escapar a essa pergunta inquietante a não ser através de uma espécie de má-fé. Aquele que mente e se desculpa dizendo: nem todo mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência, pois o fato  de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. Mesmo quando ela se disfarça, a angústia aparece. É esse tipo de angústia que Kierkegaard chamava a angústia de Abraão. Todos conhecem a história: um anjo ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Está tudo certo se foi realmente um anjo que veio e disse: Tu és Abraão e sacrificará teu filho. Porém, pra começar, cada qual pode perguntar-se: será que era verdadeiramente um anjo? Ou: será que sou mesmo Abraão? Que provas tenho? Havia uma louca que tinha alucinações: falava-lhe pelo telefone dando ordens. O médico pergunta: “Mas afinal, quem fala com você?. Ela responde: “Ele diz que é Deus”. Que provas tinha ela que de fato era Deus? E um anjo aparece, como saberei que é um anjo? E se escuto vozes, o que me prova que elas vem do céu e não do inferno? Ou do subconsciente ou de  um  estado patológico? O que prova que elas se dirigem a mim? Quem pode provar-me que fui eu, efetivamente, o escolhido para impor a minha concepção do homem e a minha própria escolha à humanidade?  Não encontrei jamais, prova alguma, nenhum sinal que possa convencer-me. Se uma voz se dirige a mim sou sempre eu mesmo que terei que decidir que essa voz é a voz de um anjo; se considero que determinada ação é boa. Sou eu mesmo que escolho afirmar se ela é boa ou má. Nada me designa para ser Abraão, e no entanto, sou a cada instante obrigado a realizar atos exemplares. Tudo se passa como se a humanidade inteira estivesse de olhos fixos em cada homem e se regrasse por suas ações. E cada homem deve perguntar a si próprio: sou eu realmente, aquele que tem o direito de agir de tal forma que os meus atos sirvam de norma para a humanidade? E, se ele não fizer a si mesmo esta pergunta, é porque estará mascarando sua angústia. Não se trata de uma angústia que conduz ao quietismo, à inação. Trata-se de uma angústia simples, que todos aqueles que um dia tiveram responsabilidades  conhecem bem. Quando por exemplo um chefe militar assume a responsabilidade de uma ofensiva e envia para a morte certo número de homens, ele escolhe  fazê-lo e, no fundo,  escolhe sozinho. Certamente que certas ordens vêm de cima, porém são abertas demais e exige uma interpretação  - responsabilidade sua – que depende a vida de dez, catorze ou vinte homens. Não é possível que não exista certa angústia na decisão tomada. Todos os chefes conhecem essa angústia. Mas isso não os impede de agir, muito pelo contrário: é a própria angústia que constitui a  condição de sua ação, pois ela pressupõe  que eles encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, eles se deem conta de que ele não tem valor a não ser o de ter sido escolhido. Veremos que esse tipo de angústia  - a que o existencialismo descreve – se aplica também por uma responsabilidade direta para com os outros homens engajados pela escolha. Não se trata de uma cortina entreposta entre nós e a ação, mas parte constitutiva da própria ação.

O existencialismo é um humanismo
Jean-Paul Sartre
Tradutora: Rita Correia Guedes
L’existencialisme est un humanisme